São Paulo, Segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Jornal o Paulistão

Inteligência Artificial nas Escolas Expõe a Crise Estrutural da Educação Baseada em Memorização

Inteligência Artificial nas Escolas Expõe a Crise Estrutural da Educação Baseada em Memorização

Por Thais M Valente •

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A disseminação acelerada de modelos de linguagem e inteligência artificial generativa nos ambientes escolares instalou um diagnóstico recorrente entre professores, gestores e formuladores de políticas públicas. Alunos utilizam ferramentas tecnológicas para redigir ensaios, resolver exercícios e cumprir obrigações acadêmicas por meio de comandos automatizados. À primeira vista, esse comportamento é interpretado como uma onda de desonestidade acadêmica e apatia intelectual.

No entanto, uma análise mais aprofundada aponta que o receio em torno da tecnologia mascara um problema estrutural e histórico relacionado à finalidade do trabalho escolar. A educação básica tradicional, estruturada em torno da transmissão de repertórios fixos de dados, fórmulas, datas e classificações, transformou o processo de aprendizagem em sequências previsíveis de memorização e reprodução mecânica.

Esse formato pedagógico, amplamente criticado pelo educador Paulo Freire ainda na década de 1960 sob o conceito de 'educação bancária', opera de maneira semelhante a um algoritmo. Trata-se de um circuito fechado de depósito, arquivamento e devolução de informações onde o significado real do aprendizado muitas vezes deixa de existir. Muito antes da popularização da inteligência artificial, estudantes já recorriam a estratégias como a cópia de textos da internet, trabalhos encomendados e a memorização passageira apenas para a realização de avaliações.

A falta de interesse demonstrada por parte dos estudantes decorre de um currículo que raramente fomenta o sentido prático daquilo que é ensinado. Sem perceber relevância pessoal ou intelectual nas demandas propostas, o aluno tende a transferir a responsabilidade da tarefa para os recursos automatizados. Se a escola exige apenas a produção de textos padronizados e a resolução de equações por etapas mecânicas, os sistemas computacionais executam essas funções com alta eficiência.

A discussão trazida pelas ferramentas de inteligência artificial evidencia a urgência de repensar a crise de sentido na educação contemporânea. Especialistas apontam que a solução não reside na proibição das tecnologias, mas na reformulação dos métodos pedagógicos. O objetivo central passa a ser o deslocamento do eixo educacional da mera memorização para a experiência reflexiva, estimulando a formulação de perguntas, a interpretação de contextos e a construção crítica de argumentos.


Fonte original: G1


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