A disputa pelo governo do estado de São Paulo nas eleições de 2026 trouxe uma reedição antecipada, ainda no primeiro turno, do confronto que Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT) travaram no segundo turno de 2022. Com um número reduzido de candidaturas competitivas e uma estabilidade incomum nas pesquisas de intenção de voto ao longo de toda a campanha, os dois principais nomes concentraram as atenções da corrida pelo Palácio dos Bandeirantes, enquanto o debate político estadual acabou parcialmente ofuscado pela polarização da disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
Antes mesmo do início oficial da pré-campanha, Fernando Haddad expressou publicamente relutância em concorrer novamente ao governo estadual, manifestando o desejo de atuar diretamente na articulação nacional em prol de Lula. No entanto, após articulações internas, o ex-ministro da Fazenda aceitou encabeçar a chapa petista. Ao longo dos meses seguintes, o cenário demoscópico apresentou pouca volatilidade: Haddad oscilou inicialmente na faixa dos 20%, enquanto Tarcísio manteve-se na casa dos 40%, patamares que evoluíram para cerca de 30% e 50% dos votos totais, respectivamente, nas rodadas finais de pesquisas do Datafolha.
Especialistas apontam que a polarização acentuada entre o campo conservador e o petista reduziu o entusiasmo das militâncias em relação ao debate estritamente local. O favoritismo consolidado do atual governador, sustentado principalmente pela cristalização do voto conservador no interior paulista, indicava desde cedo uma forte probabilidade de desfecho ainda no primeiro turno. Esse panorama levou as discussões a migrarem com frequência para o plano federal e para a acirrada disputa pelas duas vagas ao Senado pelo estado.
A dinâmica da campanha também foi moldada por fatores exógenos e crises setoriais. Incidentes ocorridos ao longo do ano, como um acidente em obras da Sabesp em maio — que resultou em vítimas fatais na Zona Oeste da capital — e o incêndio em um trem da concessionária Trívia Trens em junho, que culminou na devolução temporária da linha para a CPTM, poderiam ter aprofundado o escrutínio sobre a gestão estadual. Contudo, o clima político manteve-se predominantemente morno.
Para o cientista político Marco Antonio Carvalho Teixeira, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), repercussões de crises em âmbito federal, envolvendo figuras do mercado financeiro e impasses no Supremo Tribunal Federal (STF), deslocaram o foco das pautas locais. Segundo o professor, Tarcísio buscou deliberadamente manter distância das turbulências associadas a aliados nacionais na primeira metade do pleito para preservar sua vantagem nas pesquisas, adotando uma postura de cautela em relação a debates públicos mais amplos.
No mesmo sentido, o sociólogo e cientista político Antonio Lavareda avaliou que a forte nacionalização do pleito ocorreu de maneira natural, dado o perfil de Haddad como ex-ministro de Estado. Lavareda também ponderou que a hesitação inicial da oposição em definir uma cabeça de legenda acabou por beneficiar a estratégia do incumbente, reduzindo o tempo útil de contestações mais profundas durante a pré-campanha.
Os debates televisivos realizados ao longo do primeiro turno evidenciaram o perfil técnico de ambos os candidatos. Marcados por embates profundos sobre números e indicadores de gestão, os encontros públicos abordaram frentes consideradas vitais para a administração do estado:
- Segurança Pública: A atuação policial e o combate ao crime organizado figuraram entre os temas mais recorrentes. A campanha petista questionou a penetração de facções no interior e o avanço de organizações criminosas sobre instituições, enquanto a gestão estadual enfatizou a queda de índices criminais e o uso de tecnologia.
- Privatização da Sabesp: A desestatização da companhia de saneamento básico transformou-se em um dos principais divisores de águas do pleito. Haddad criticou duramente o modelo de privatização adotado, apontando falhas recentes no abastecimento e prometendo rever contratos, ao passo que Tarcísio defendeu o incremento na capacidade de investimentos proporcionado pelo modelo.
- Saúde e Educação: A área da saúde gerou debates intensos sobre filas de atendimento e propostas de expansão da telemedicina. Na educação, o centro das discussões passou por políticas públicas voltadas para alunos atípicos e pelos índices de qualidade avaliados pelo Ministério da Educação.
Com a forte tendência de encerramento da disputa estadual em turno único, analistas políticos debatem os desdobramentos estratégicos para a sucessão presidencial. Enquanto alguns avaliam que a desmobilização de estruturas locais de campanha, típica do fim da corrida para o governo, pode arrefecer o engajamento de cabos eleitorais e prefeitos, outros ponderam sobre o grau de transferência de votos que os palanques de Lula e Flávio Bolsonaro conseguirão consolidar nas urnas paulistas até o encerramento do processo eleitoral.
Fonte original: G1