Por Phillipe Guedes, TV Globo e g1 — São Paulo
18/09/2026 11h11 Atualizado 18/09/2026
O representante do departamento jurídico da empresa de ônibus A2 Transportes, Paulo Ricardo, informou nesta sexta-feira (18) que a companhia cumpriu rigorosamente a determinação do prefeito Ricardo Nunes (MDB) e afastou os dois diretores investigados no âmbito da Operação Vectura Corrupta.
Segundo a A2, a SPTrans já foi comunicada oficialmente acerca do afastamento dos dois membros da diretoria que figuram nas investigações conduzidas pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP), sob suspeita de laços com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).
O desligamento imediato dos diretores constituiu a condição essencial impuesta pela gestão municipal para evitar uma intervenção direta na operadora de transporte. As apurações do MP-SP apontam o empresário Paulo Sirqueira Korek Farias, gestor da A2, como operador de interesses da facção no setor de transportes da capital.
Farias foi alvo de um mandado de prisão emitido nesta quinta-feira (17). Júlio Salvador Filho, diretor da empresa, também acabou preso no decorrer da mesma ação policial.
Por meio de nota oficial divulgada anteriormente, a empresa já havia refutado veementemente "qualquer envolvimento com o Primeiro Comando da Capital (PCC), bem como qualquer prática de lavagem de dinheiro ou participação em atividades ilícitas".
Os dois executivos da companhia que são alvo das investigações do MP são:
- Júlio Salvador Filho, diretor da A2 Transportes (preso);
- Paulo Sirqueira Korek Farias (conhecido como Paulo Camarão), gestor da A2 e presidente do Esporte Clube Água Santa (foragido).
Operação aponta infiltração do PCC em 12 empresas de ônibus de SP
A Prefeitura de São Paulo anunciou nesta quinta-feira (17) que avaliava a decretação de uma intervenção na A2 Transportes, após a companhia ser mencionada em uma operação conjunta da Polícia Civil e do Ministério Público voltada a investigar a suposta infiltração do PCC em empresas concessionárias do sistema de transporte coletivo municipal. Vale ressaltar que a empresa em si não foi alvo direto da operação.
A medida estudada pela prefeitura assemelha-se à intervenção adotada em 2024 nas concessionárias Transwolff e UpBus, que na época foram os alvos centrais da Operação Fim da Linha.
Em nota oficial, a administração do prefeito Ricardo Nunes (MDB) informou a criação de um grupo de trabalho estratégico composto por representantes da Procuradoria-Geral do Município, da Controladoria-Geral do Município (CGM), da SPTrans e da Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte, com a finalidade de analisar detalhadamente os elementos coletados na operação.
"A Prefeitura fará um levantamento rigoroso de contratos, documentos e eventuais vínculos da empresa com o sistema municipal de transporte, adotando imediatamente todas as medidas administrativas e judiciais que forem necessárias para proteger o interesse público e assegurar a continuidade dos serviços à população", destacou a administração municipal por meio de comunicado enviado à imprensa.
Em entrevista concedida à TV Globo, o prefeito Ricardo Nunes declarou que uma decisão final seria tomada ainda no mesmo dia, ressaltando que a operação policial não compromete a segurança ou a operação do transporte público na capital.
"Não tem empresas do setor operando hoje que estejam nessa operação. O que a gente tem é uma empresa, aonde um dos sócios da A2 tem uma citação e pedido de prisão, mas a empresa em si não está cogitada no processo. Então esse grupo vai analisar juridicamente, tecnicamente e operacionalmente essa questão pra eu tomar a decisão se é o caso de fazer intervenção ou não da A2", pontuou o prefeito.
A administração municipal havia concedido um prazo improrrogável de 24 horas para que a companhia efetuasse o afastamento dos gestores citados.
A ofensiva decorre de autorização expedida pelo Tribunal de Justiça de São Paulo para a prisão temporária de 16 investigados apontados como integrantes ou colaboradores de uma organização criminosa estruturada para assumir o controle de empresas de ônibus e influenciar contratos públicos e licitações na área.
Em trecho do despacho judicial, o desembargador Sérgio Ribas destacou que as investigações revelam que "12 das 22 empresas de transporte operando o sistema de transporte coletivo da capital são, em tese, controladas pelo PCC".
A operação também atingiu o ex-vereador Milton Leite (União Brasil), que exerceu a presidência da Câmara Municipal durante todo o quadriênio legislativo anterior (2021-2024), além de Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans e ex-secretário municipal de Mobilidade e Trânsito de São Paulo.
Conforme o inquérito, a A2 Transportes aparece em diálogos interceptados pelas autoridades policiais que sugerem a existência de um esquema voltado à infiltração de facções em companhias do setor. A empresa teria sido acionada em transações comerciais atreladas ao grupo criminoso, com menções diretas à atuação de dirigentes e empresários da área.
Entre os alvos dos mandados de prisão, o empresário Paulo Sirqueira Korek Farias é apontado pela investigação não apenas como proprietário e gestor da A2 Transportes e de outras empresas do ramo, mas também como suposto "testa de ferro" do grupo criminoso, havendo indícios de que administraria os interesses da facção no transporte público, segundo o magistrado.
Em contato com a TV Globo, a defesa da A2 afirmou que Paulo Korek classifica as acusações como meras "ilações" e que pretende esclarecer todos os pontos. Segundo o representante legal, o investigado manifestou disposição para se entregar, exigindo contudo apresentar-se diretamente à Corregedoria por alegar possuir "algumas coisas para expor".
A Justiça também decretou a prisão temporária de Julio Salvador Filho, diretor da A2 Transportes. Os autos apontam que ele atuaria como interlocutor de alvos do esquema e participaria da autorização de repasses financeiros a pessoas apontadas como laranjas da organização criminosa.
A decisão judicial menciona ainda diálogos atribuídos a Paulo Korek referentes à comercialização de 63 ônibus da empresa Translider pelo montante de R$ 1.260.000, com o uso de contas bancárias da A2 para o fluxo dos recursos. Para os investigadores, as conversas reforçam a suspeita de utilização de empresas de ônibus para operacionalizar negócios escusos vinculados à facção.
Íntegra da nota oficial da A2 Transportes:
"A A2 Transportes, por meio de seu presidente, Paulo Siqueira Korek, reafirma seu compromisso com a legalidade, a transparência, a ética e a seriedade na condução de suas atividades. A empresa nega de forma categórica qualquer envolvimento com o Primeiro Comando da Capital (PCC), bem como qualquer prática de lavagem de dinheiro ou participação em atividades ilícitas. A A2 Transportes esclarece, ainda, que todos os recursos financeiros que ingressam na empresa são provenientes exclusivamente dos contratos e pagamentos realizados pela Prefeitura pelos serviços regularmente prestados. Não existem outras fontes de entrada de recursos financeiros na empresa. Diante das informações que vêm sendo divulgadas, a empresa está à disposição das autoridades competentes para apresentar documentos e prestar todos os esclarecimentos necessários, contribuindo para que os fatos sejam devidamente apurados. Para o presidente Paulo Siqueira Korek, o movimento que vem ocorrendo em torno da empresa apresenta, em sua percepção, forte componente político. A A2 Transportes, entretanto, reafirma que seguirá colaborando com as instituições responsáveis pela apuração e respeitando rigorosamente o devido processo legal."
"A A2 Transportes nunca teve envolvimento com o PCC e jamais fez lavagem de dinheiro. Nossos recursos são provenientes exclusivamente dos contratos e pagamentos realizados pela Prefeitura pelos serviços que prestamos. Não temos outras fontes de entrada de recursos. Nossa história é construída com trabalho, seriedade e ética. Estamos à disposição para todos os esclarecimentos necessários e confiamos na apuração dos fatos e na Justiça" — declarou Paulo Siqueira Korek, presidente da A2 Transportes.
A A2 Transportes reiterou seu compromisso inabalável com a verdade e a transparência, expressando total confiança de que os fatos serão elucidados com base em provas documentais e informações oficiais.